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id da página: 5997 Kingsley Mestre-Discípulo Peter Kingsley

Kingsley Mestre-Discípulo

Peter Kingsley — MESTRE-DISCÍPULO


Peter Kingsley considera que a iniciação entre os pitagóricos era uma experiência em que toda a vida era virada de cabeça para baixo, e de dentro para fora. E, durante o processo, a ligação entre mestre e discípulo se fazia essencial. Eis porque se via esta ligação como a relação entre um pai e um filho adotivo. O mestre se torna seu pai — assim como através da iniciação nos Mistérios. Se tornar um pitagórico significava ser adotado, ser introduzido em uma grande família.

O pano de fundo de tal adoção praticada pelos pitagóricos era muito simples. Essencialmente era um processo de renascimento: se tornar um Pequenino, uma criança de novo, um “kouros”. E nestas condições havia mais que ser adotado, do que assim parece.

Os fatos físicos de herediteriedade nunca eram apagados ou cancelados. Eles continuavam a se aplicar e ter sua validade óbvia. Mas ao longo disto, algo era criado.

A adoção não era apenas parte de um mistério. Era um mistério ele mesmo. Significava ser iniciado em uma família que existe em outro nível daquele de qualquer coisa que estamos acostumados. Exteriormente todas as associações com o passado ainda existiam. E, no entanto, interiormente havia consciência de pertencimento a algo mais, jamais possível de se pertencer aqui — de ser atendido muito mais intimamente do que se é por só ser humano.

Quanto às pessoas que desempenham o papel de mestre e iniciador, poderiam parecer bastante humanas. Mas o papel que desempenhavam era muito mais que o papel de um pai humano. Eram encarnações de outro mundo. Em suas mãos morria-se para tudo que se era, para tudo que se teria aprendido a se apegar enquanto sua própria existência. Eis porque às vezes se referiam a eles — quando eram homens — como “verdadeiros pais”. E a ênfase estava na palavra “verdadeiro”. Do ponto de vista dos mistérios, a vida ordinária que conhecemos é somente um primeiro passo, uma preliminar para algo mais.

Entre os primeiros pitagóricos a importância dada a este processo de interação entre “pai” e “filhos”, de transmissão de um para outro, era fundamental. Levava a demandas éticas que eram muito fortes. E estas demandas não eram sempre requisitos formais: frequentemente, ao contrário, tinham de ser intuidas. Mesmo as lendas pitagóricas ainda refletem a necessidade que por vezes podia ser sentida presente no leito de morte do mestre quando este morria.

Mas sob as especificidades havia um fato central. Era o fato que o mestre é um ponto de acesso a algo além do mestre. E atrás de um mestre havia uma linhagem de mestres, um atrás do outro. O ensinamento era simplesmente transmitido de geração a geração, um passo de cada vez, frequentemente em segredo e por vezes em circunstências de imensa dificuldade.

O resultado era paradóxico. As vidas das pessoas e mesmo suas mortes eram cedidas a seus mestres. E no entanto não cediam a nada. Tornavam-se parte de um imenso sistema; mas através deste sistema encontravam uma extraordinária criatividade. Tornavam-se membros de uma família que estava indescritivelmente íntima — e totalmente impessoal.

Cada mestre pareceia ter uma face mas realmente era sem face: era apenas um elo em uma cadeia de tradição que alacançava Pitágoras, ele mesmo. E Pitágoras ele mesmo era sem nome. Os pitagóricos evitavam menciná-lo por nome porque sua identidade era um mistério — da mesma maneira que evitavam frequentemente mencionar os nomes dos outros ou os nomes dos deuses. Até onde sabiam, Pitágoras não era apenas o homem que parecia ter sido. Conheciam ele como um filho de Apolo ou, bem simplesmente, como Apolo ele mesmo.